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Xilogravuras

Técnicas de Produção

 
 
Xilogravura de J. Borges

          A imagem xilográfica é talhada em madeira pelo gravador matuto, com tesoura, de uma perna só; banda de gilete, quicé (faca de cortar fumo), formão ou canivete. Qualquer instrumento cortante, desde que tenha fio afiado suficiente para abrir os sulcos e deles tirar as crenças e tradições cablocas vestidas de anjos ou demônios, de gente ou bichos, de heróis ou bandidos. O Nordeste, símbolo de escassez, não é muito exigente quando se trata de dar vida à sua fantasia.
          O espaço para a expressão gráfica da região era antes definido pelo formato dos folhetos de cordel. Hoje não tem mais limite: tacos de madeira (umburana, jatobá, casca de cajá-mirim, cedro ou até mesmo pinho) de qualquer tamanho, formato geralmente retangular. A maior exigência é quanto à superfície, que deve ser plana e lisa, onde o lápis de carpinteiro ou o toco de carvão possa, sem dificuldade, traçar o roteiro da revelação. E para que depois de pronta a prancha, se faça com ela boa impressão.
          Contrariando, porém, a semântica, a xilogravura nem sempre, atualmente, se mantém fiel à madeira. Há gravadores que trocaram a matéria-prima natural, produto cada vez mais escasso, pelo sintético, seguindo o exemplo do revolucionário Dila (José Cavalcante e Ferreira), o gravador de cangaceiros.
          Diz J. Borges (Bezerros, Agreste pernambucano) que seu colega e amigo, o Dila de outros nomes e dupla carteira de identidade, adquiriu invejável perícia em lidar com a borracha artificial ou placas de bateria de automóvel, gravando nelas as figuras de cangaceiros ou demônios, como se estivesse cortando sabão. Mas entre ser amigo e seguidor de Dila, a distância é muito grande para Borges. Reconhece a qualidade do material sintético (superfície plana e regular, facilidade de corte e maior aderência ao papel na hora de impressão). Mas no seu caso particular, acha que abrir mão da madeira é perder algo irrecuperável.

J. Borges

          José Francisco Borges, J. Borges, nasceu em Bezerros, estado de Pernambuco, no dia 20 de dezembro de 1935. Filho de lavradores, cedo trocou a escola pelo trabalho na roça. Autodidata, o gosto pela poesia fez encontrar nos folhetos de cordel um substituto para os livros escolares. Ainda criança, vendeu cestos e balaios nas feiras. Mais tarde, trabalhou em usinas de açúcar e em olarias, dedicando-se finalmente à manufatura de brinquedos e de móveis de madeira para bonecas.
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          Em 1956, com as economias do seu trabalho, Borges viajou para Recife e comprou folhetos para revender. Embora vivendo principalmente do trabalho na construção civil, passou a vender regularmente folhetos nas feiras da região nos fins de semana. O comércio de folhetos  marcou um novo ciclo em sua vida. O trabalho na construção civil foi progressivamente substituído pelo cordel até que, em 1964, o veterano poeta Antonio Ferreira da Silva incentivou a impressão do seu primeiro original.  Com capa ilustrada pelo Mestre Dila, de Caruaru, “O Encontro de Dois Vaqueiros no Sertão de Petrolina” tornou-se o seu primeiro grande sucesso. Em poucos dias, 5000 exemplares foram vendidos e o resultado dessa primeira experiência incentivou novas criações. No entanto, com a dificuldade de conseguir clichês para a ilustração das capas dos folhetos, Borges confeccionou sua primeira gravura, desenhando uma Igreja para o seu segundo folheto, “O Verdadeiro Aviso de Frei Damião sobre os Castigos que Vêm”. Até hoje, as tiragens de 5000 exemplares desse cordel se esgotam rapidamente. Outros sucessos desse período foram “A Mulher que Vendeu o Cabelo e Visitou o Inferno” e “A Chegada da Prostituta no Céu”, que tornaram-se clássicos do gênero. Borges possui atualmente mais de uma centena de poemas publicados.
 
   
 
          A divulgação do seu trabalho como gravurista iniciou-se em 1972, quando os pintores cariocas, Ivan Marquetti e José Maria de Souza, em visita a Bezerros, encomendaram gravuras em tamanhos maiores do que os usados normalmente no cordel. Pelas mãos desses pintores, essas gravuras chegaram ao escritor Ariano Suassuna e, com o seu incentivo, Borges passou a ser conhecido como o “melhor gravador do Nordeste”. Em pouco tempo, os seus trabalhos já participavam de exposições na França, Alemanha, Suíça, Itália, Venezuela e Cuba.
 
   
 
          J. Borges tem recebido vários prêmios e distinções, entre os quais se destacam os concedidos pela Fundação Pró-Memória (Brasília, 1984), pela Fundação Joaquim Nabuco (Recife, 1990), pela V Bienal Internacional Salvador Valero (Trujilo/Venezuela, 1995), a medalha de mérito cultural conferida no Brasil pela Presidência da República e o reconhecimento internacional pela outorga do Prêmio UNESCO 2000.
 
   
 
          Suas gravuras ilustram livros publicados no Brasil, na França, em Portugal, na Suíça e nos Estados Unidos. São de sua autoria, entre outras, as seguintes obras: “Gravuras de J. Borges” (Recife: Galeria Nega Fulô, 1973), “Xilogravuras de J. Borges” (Recife: Galeria Ranulpho, 1975), “No Tempo que os Bichos Falavam” (Olinda: Casa da Criança de Olinda e Instituto Nacional de Folclore, 1983), e “Poesia e Gravura de J. Borges” em parceria com Silvia Coimbra (Recife: sem editora, 1993). Elas são encontradas também em capas de discos como Quinteto Violado, Festival de Violeiros, Nordeste Cordel, Repentes e Canção. Hoje, Borges continua trabalhando com seus filhos no seu atelier em Bezerros, o Memorial J. Borges, onde máquinas tipográficas dividem espaço com centenas de matrizes, gravuras e folhetos de cordel.


J. Miguel

          José Miguel da Silva, conhecido como J. Miguel, nasceu em Bezerros, Estado de Pernambuco, no dia 13 de Janeiro de 1961. Filho de J. Borges, começou a trabalhar aos 10 anos de idade na gráfica do pai, onde se produziam grandes quantidades de folhetos de cordel. Inicialmente, trabalhou em composição tipográfica, atividade que o manteve próximo aos trabalhos do pai e à qual foi progressivamente incorporado, em face do grande talento e da capacidade técnica que logo desenvolveu.Iniciando com pequenas gravuras, Miguel despertou desde muito cedo o interesse de marchands e colecionadores. Embora tenha vendido muitas de suas matrizes, ele formou um acervo que hoje conta com mais de 100 obras, algumas das quais expostas em Garanhuns, em Recife e no Rio de Janeiro. Hoje, suas gravuras podem ser encontradas na Casa de Cultura Serra Negra em Bezerros, oficina que divide com seu pai J. Borges, na feira de artesanato de Caruaru e em Recife.

Givanildo

          Nascido em Bezerros, Estado de Pernambuco, a 8 de Julho de 1962, Givanildo Francisco da Silva aprendeu a técnica da xilogravura observando o trabalho do seu tio J. Borges. Sem incentivo para se desenvolver no domínio dessa arte, durante muitos anos sua única fonte de renda foi o trabalho como pedreiro, atividade a que ainda hoje recorre para a complementação da renda familiar. Participando de feiras de artesanato na região, começou a divulgar o seu trabalho tanto regional quanto nacionalmente. Hoje, o Museu do Homem do Nordeste da Fundação Joaquim Nabuco, em Recife, possui uma coleção de aproximadamente 200 matrizes de sua autoria. Entre outras mostras, Givanildo participou do IV, V e VI Encontro Latino Americano de Folclore e Artesanato e, enquanto integrante da Associação de Artesãos de Bezerros, vende suas gravuras em lojas e feiras do Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Olinda e Caruaru, além de Bezerros, cidade onde reside.

Amaro Francisco

          Amaro Francisco Borges é pernambucano do Sítio Piroca, município de Bezerros, e nasceu no dia 12 de março de 1939. Ainda pequeno desenvolveu habilidades manuais ajudando os irmãos e a mãe, a conceituada bonequeira Maria Francisca, a fazer cestos de cipó para venda. Trabalhou na lavoura de cana até os 20 anos e na construção civil até os anos 80. Em 1971, fez sua primeira xilogravura, “O dono do boi Mansa”, utilizando sobras de madeira de construção. Dessa época são também “O dragão e a jibóia” e “Ciúme e traição”. Inicialmente, vendia suas peças a um marchand de Olinda, porém, em 1975, passou a comercializar sua própria obra, vendendo, inclusive, 7 matrizes à embaixada da Alemanha.
          Irmão de J. Borges, pai de Severino Borges e marido de Nena, todos xilogravuristas, Amaro Francisco foi o criador da gravura colorida e fez sua primeira exposição entre os anos de 1981 e 82. Morou muitos anos em Olinda.
          Amaro faleceu em 8 de junho de 2006. Seus filhos pretendem continuar divulgando seus trabalhos e seguir em frente com todos os seus projetos.


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