O Brasil está sediando os 15º Jogos Pan-Americanos,
um dos maiores eventos esportivos do mundo, que reúne
diversas modalidades e atrai atletas e turistas de
diversos países, garantindo retornos em todas
as áreas para o país inteiro. Um destes
retornos talvez seja uma reflexão acerca do
patriotismo que o brasileiro carrega na veia.
Plagiando Euclides da Cunha, em sua obra-prima “Os
Sertões”, o brasileiro é, antes
de tudo, um forte. Quando se executa o Hino Nacional,
especialmente, em eventos esportivos, a emoção
nos contagia e cantamos com aquele embargo na voz
e arrepio na pele aquelas frases que nunca paramos
para prestar realmente atenção no que
significam. Depois da abertura do Pan, me senti desafiada
a interpretá-las (ou pelo menos compreendê-las),
e este talvez tenha sido um dos maiores legados que
o evento trouxe para mim, pois descobri paradoxos
interessantíssimos entre o hino e a nossa realidade.
Dizem que ouviram às margens plácidas
do Ipiranga um brado retumbante de um povo heróico.
Até aqui tudo bem, o povo brasileiro é
indiscutivelmente heróico, mas quem ouviu?
Dom Pedro e comitiva? “E o sol da liberdade,
em raios fúlgidos” tem brilhado no céu
de nosso Brasil? Infelizmente, nunca conseguimos conquistar,
nem com nosso braço forte, o penhor de igualdade
nenhuma, mesmo desafiando a própria morte de
peito aberto. “Ó, Pátria amada,
idolatrada, salve, salve!” – nesta parte
sim a gente pode ouvir o tal brado retumbante: “salve,
salve o Brasil!”
A estrofe seguinte diz que “um sonho intenso,
um raio vívido de amor e de esperança
à terra desce” se no nosso “formoso
céu, risonho e límpido”, resplandece
a imagem do Cruzeiro (leia-se, ou cante-se, Real).
“Gigante pela própria natureza”,
hoje tão devastada, tão destruída,
somos belos, fortes, somos um colosso destemido, mas
nosso futuro “espelha realmente esta grandeza,
terra adorada”? “Entre outras mil”,
e apesar de outras mil, “és tu, Brasil”,
a nossa sempre “Pátria amada”.
Cantamos que o Brasil fulgura como “florão
da América”, um florão “deitado
eternamente em berço esplêndido”,
ao som de um belíssimo e indescritível
mar, à luz de um profundamente lindo céu
azul, “iluminado ao sol de um novo mundo”.
Ora, ainda precisamos fazer chegar esse novo mundo,
onde justiça, igualdade e fraternidade não
sejam meras palavras que fazem parte de um dos símbolos
nacionais. “Do que a terra mais garrida”,
nossos “risonhos, lindos campos têm mais
flores” e “nossos bosques têm mais
vida”, mas nossa vida não encontra no
seio do Brasil o amor que poderia.
O ideal seria que o lábaro, ou apenas a bandeira
estrelada que ostentamos, fosse realmente o símbolo
maior do amor de um povo por seu país, e que
o seu verde-louro dissesse “paz no futuro e
glória no passado” (atual, não?).
Temos clamado pela clava forte da justiça há
mais de 500 anos, sem muito retorno, mas, como filhos
leais que somos, não fugiremos à luta
por nossa “terra adorada”, porque, mais
do que mãe gentil, és a nossa Pátria
amada, Brasil”.
Amo o meu país. O Brasil é, com certeza,
o maior símbolo de otimismo, confiança,
garra, e, sobretudo, fé e coragem no mundo.
Não podemos permitir que escândalos,
em sua maioria, políticos façam desaparecer
a confiança que temos no nosso futuro. Sofremos
muito, padecemos horrores, desde que fomos “descobertos”,
mas até isso dá um colorido especial
a uma nação plural como a nossa.
Que venham os escândalos, diversos “apagões”,
os juros mais altos do mundo, a inflação,
o desemprego, a violência: Nossas cicatrizes
e feridas abertas são apenas mais uma prova
de quão guerreiros são os brasileiros.
Tenho certeza que a minha “Pátria amada”,
minha terra “mãe gentil” não
cruzará os braços jamais.
Comente
esta coluna